Ontem à noite o Senado americano aprovou o pacote de medidas que devem “consertar o sistema financeiro e impedir uma crise como a de 2008″, como noticiado em quase todos os meios de comunicação. Infelizmente, apesar das manchetes contundentes, dos discursos de vitória inflamados e do fato de que a lei ainda precisa ser mesclada com a aprovada pelos Deputados, impedir crises no mercado financeiro de maneira geral é como tentar impedir água de descer morro abaixo ou fogo morro acima, como diz o ditado brasileiro. O motivo é simples e não demanda explicações muito longas.
O mercado financeiro emprega pessoas extremamente inteligentes, preparadas, motivadas a conseguir um único objetivo, a recompensa financeira, e que possuem bolsos profundos. Do outro lado do ringue estão burocratas do governo e, um bom número deles, com a tendência de saírem de órgãos de fiscalização e irem trabalhar no próprio mercado financeiro. Não é surpresa que os participantes desta área dêem três voltas na maioria das regras e regulamentos existentes. Então esse e o primeiro ponto que o leitor deve ter em mente: apesar dos discursos políticos (nos EUA, no Brasil ou onde for), outras crises ocorrerão no futuro. Onde e como é que não sabemos.
Dito isso é importante também considerar que é possível diminuir o risco sim e, pelo menos, tentar de maneira inteligente fazer com que as próximas crises não sejam tão devastadoras para a economia mundial como a última está sendo. A reforma proposta nos EUA, assim como as que estão em discussão ou implementação na Europa, não fazem isso. Elas até tem um ou outro ponto importante, como o trading de derivativos em bolsas, mas elas estão respondendo mais aos anseios de uma população raivosa, a políticos que entendem pouco de mercado financeiro muito de eleição e aos lobistas do setor, que devem estar tendo o melhor ano de suas vidas nos Estados Unidos. As regras não são simples e poderosas o suficientes e se baseiam no modelo fracassado de hoje, da supervisão por novos órgãos do governo, como se uma nova sigla ou um novo comitê fosse transformar a supervisão em algo efetivo.
Minha idéia era discorrer aqui sobre algumas opções para que uma reforma fosse mais produtiva, mas felizmente, encontrei esta semana um artigo do ótimo Allan Sloan, da revista Fortune, onde ele (junto com escritores e colaboradores da revista) elaboraram 6 sugestões simples, mas poderosas (a melhor combinação que existe em se tratando de regulamentos), assim como algumas que não deveriam ser utilizadas – como a famosa Volcker rule, que pretende separar bancos de investimento dos bancos comerciais, como eram antes dos anos 90.
Aos brasileiros que acreditam que estamos imunes a essa crise e que não há problema em nosso sistema financeiro, lembro que só não sofremos muito mais com a crise por 3 simples motivos:
1- A China conseguiu continuar crescendo e, como nós ainda somos exportadores de commodities, nos levou junto.
2- Nossos bancos ainda são pouco internacionalizados e temos um mercado bem grande, ou seja, não precisaram fazer como alguns bancos de países europeus e se expor de maneira decisiva aos mercados de outros países.
3- Nós ainda temos uma das taxas reais de juros mais altas do mundo e nosso sistema de crédito, embora em franca expansão, ainda é pequeno e não tão desenvolvido. Por isso nossos bancos não tinham CDO’s e todo tido de hipotecas envenenadas em seus balanços. Porque eles não tinham acesso a elas, mas se tivessem é provável que a famosa marolinha fosse uma bela ressaca. Ou alguém tem dúvida de que se o governo pudesse incentivar a concessão de hipotecas e a farra da casa própria, como foi nos EUA, ele não teria feito? “Todo o brasileiro tendo sua casa”?
Portanto é importante prestarmos muita atenção ao que está sendo feito fora do Brasil, para que nosso sistema financeiro possa crescer de uma maneira mais organizada e inteligente e que beneficie não só os seus participantes, mas a sociedade como um todo. Senão, teremos desperdiçado essa chance de ouro de não termos sido carregados para o maremoto da crise mundial.
Link para o artigo do Allan Sloan, da Fortune Magazine: 6 ways to fix Wall Street (em inglês)