Para o Carnaval do Rio de Janeiro, que esse ano teve mais pessoas em seus blocos que Salvador, não terminar sem uma polêmica de despedida, na noite de Sábado, dia 20 de Fevereiro, um “senhor idoso”, “homem” ou “cidadão” dependendo de quem dá a notícia, se sentiu afrontado ao presenciar o beijo de duas meninas na praia do Arpoador, logo apos a passagem do bloco “mulheres de Chico”. Segundo o jornal O Globo o cidadão preocupado com a lei e a ordem, achou que estava presenciando um possível crime (pedofilia) e chamou a Policia Militar. Daí para frente, daria para fazer, perdoem o trocadilho, uma marchinha de carnaval!
A “pedofilia” não é um tipo penal, de acordo com o código penal brasileiro. Quando caracterizada como contato sexual entre crianças e adultos, ela poderia se enquadrar nos crimes de estupro ou atentado violento ao pudor. As moças em questão tinham 18 e 17 anos, ou seja, a não ser que o denunciante tenha pedido a identidade das meninas é de se supor que não era a pedofilia, nem a corrupção de menores que o preocupava e sim o fato de serem duas mulheres, ou adolescentes, se beijando na rua e como isso atentava contra a moral e os bons costumes.
Tudo bem. O “senhor” tem todo o direito de não gostar, assim como as moças tem todo o direito de se beijar. O problema piorou mesmo quando os policiais militares, pagos e treinados para, supostamente, manter a ordem, se meteram no meio e resolveram deter as beijoqueiras e encaminha-las para a delegacia do bairro. Na confusão que se seguiu, com direito a gritaria e spray de pimenta, um PM acabou empurrado para a rua, onde foi atropelado (teve o tornozelo fraturado, segundo consta) e dois homens foram detidos por desacato à autoridade. Vale dizer que, provavelmente, essas mesmas “autoridades” estavam abusando de seu poder nessa hora, mas isso no Brasil é detalhe e como sempre, não dá em nada porque, afinal de contas, que “autoridade” no Brasil não abusa, de uma forma ou de outra, do poder?
Se a polícia carioca estivesse tão preocupada com os “atos libidinosos” teriam que prender uns 80% dos foliões do carnaval do Rio, pelo menos. Beijos e amassos em público podiam ser vistos na maioria dos blocos e na maioria das ruas pelas redondezas de onde os blocos passaram. Não ia ter polícia que desse conta! Por que não, por exemplo, prender os adolescentes sem camisa que roubam beijos das meninas que passam na rua? Será que isso não ofenderia o tal senhor? E se uma delas for menor de idade? E os casais se agarrando nos muros, portas de prédios e no meio das ruas?
Vamos parar de tergiversar e partir pro ponto principal: o caso foi de homofobia mesmo. O problema eram duas moças se beijarem, se fosse um casal heterossexual, duvido que este senhor teria reclamado com a policia. Talvez tivesse até pensado “garoto bom esse, belo beijo. Ahh meu tempo”. E mesmo que tivesse reclamado, alguém aí acha que a PM iria lá “tomar uma providência”?
Nós somos assim no Brasil, mulher ir à praia de biquínis que são, quase que literalmente, fios dentais pode. Sutiãs quase inexistentes podem. Os bumbuns pelo qual o rio é famoso todos de fora podem. Mas top-less não pode, porque, certamente, a exibição de mamilos é um ato libidinoso e que perverte a juventude inocente. Alguém aí se lembra de alguns anos atrás quando a PM deteve uma mulher que fazia top-less na praia? Pois é, mas em frente ao hotel Copacabana Palace, lugar muito freqüentado pelos travestis do rio, o que mais se vê são peitos de silicone desnudos para lá e para cá. Mamilos masculinos, ou que eram originalmente masculinos, pode então?
Eu, por exemplo, sou contra os casais que “ficam se pegando”, para usar o termo carioca, no meio da rua ou em locais públicos. Sejam eles heterossexuais, homossexuais, espirituais, animais, ou qualquer outra coisa. Sou 100% a favor do amasso, mas em locais privados, só que acho que esse é um problema de educação e não policial. Porém, segundo relatos, esse nem era o caso aqui, pois se tratava de uns beijos mesmo e que mal tem uns beijos em local público?
Pelo menos, apesar da lamentável atuação da Policia Militar, o caso não foi para a frente e o delegado de plantão deixou a confusão “morrer na praia”, preferindo não se meter na briga. Ele nem acusou o tal senhor de homofobia, nem deteve as beijoqueiras.
O pior de tudo isso é ler os comentários dos leitores do jornal O Globo sobre as notícias. Me senti sendo levado de volta á década de 30 do século passado (ou 50, ou 60, ou hoje, infelizmente). Uma boa parte dos comentários foi para o lado de que as moças tinham que ser presas mesmo por esse ato “pecaminoso”, “vexatório” e de “atentado violento ao pudor”. Isso sem contar os palavrões e os que sugerem uma ou outra Igreja para salvar a alma dessas pecadores da influência do tinhoso, o sete-peles! As que sugerem que os pais das meninas devem tê-las criado de maneira errada ou que são irresponsáveis por deixarem duas “crianças” saírem sozinhas no bloco, então, são minhas preferidas.
Tudo poderia ter sido resolvido de maneira tranqüila e sem problema, se os policiais militares tivessem tido um mínimo de bom-senso, ou pelo menos, tivessem sido treinados um pouco melhor. Entretanto, me arrisco a dizer que eles representam o comportamento e a cabeça da maioria dos brasileiros. Infelizmente, acho que as pessoas que conseguem respeitar a escolha sexual dos outros sem julgar, ou mesmo que as incomode, respeitar o direito de cada um, são muito poucas em relação à população total do Brasil. Um fim desnecessário para um carnaval que mostrou, apesar dos problemas, ter sido muito mais organizado que o do ano passado.