Hoje o equivalente ao Ministro da Economia da Inglaterra determinou que os bônus dos banqueiros que excederem pouco mais de 150 mil reais serão taxados em 50%. É uma forma politicamente barata de aumentar a arrecadação do tesouro inglês em um momento em que o déficit do país aumenta consideravelmente. Politicamente barata porque, com certeza, o público em geral receberá esse gesto com muita felicidade, será uma pequena retribuição contra os gananciosos que levaram o mundo à beira da ruína.
Pelo menos é o que se pode deduzir se o leitor for pesquisar por aí o que anda sendo falado dos executivos do mercado financeiro. Ao redor do mundo, principalmente na Inglaterra, França, Estados Unidos e Alemanha, há uma grande discussão e preocupação em como limitar os impressionantes ganhos que alguns executivos dessa área tiveram na última década e têm até hoje. A discussão se concentra em dois pontos principais:
1- Como fazer para que os ganhos nessa área de trabalho estejam mais relacionados aos resultados de médio/longo prazo das operações e não voltado só para os resultados de curto prazo, que podem incentivar o risco excessivo e a falta de preocupação com o futuro. Pois da maneira como acontece hoje em dia, o executivo ganha o seu dinheiro e pode ir trabalhar em outro lugar e desfrutar de seus ganhos, sem se preocupar com o que fez antes e seu impacto na empresa e no resto do mundo.
2- Como fazer para que os responsáveis por operações que se provem ruins, provocando toda sorte de prejuízos, sejam responsabilizados por esses resultados, muito tempo depois de terem tomado as decisões iniciais.
Toda essa preocupação se justifica, sem dúvida, por um motivo: as decisões tomadas nessa área, principalmente as grandes decisões, podem afetar a sociedade como um todo, dada a gigantesca (não é exagero) importância do setor financeiro para os outros setores da economia e, consequentemente, da sociedade. Também acho que muitos dos valores pagos hoje em dia são completamente absurdos e fora de propósito. Raros são os gigantescos bônus realmente merecidos, mas ao contrário dos políticos, não estou tão certo assim de que impostos e regras rígidas sejam o melhor caminho para resolver esse problema. Existem diversos outros que não envolvem o aumento do controle do Estado sobre atividades privadas. Esse envolvimento, via de regra, termina fazendo com que o remédio seja pior que a doença no mesmo “logo prazo” que é, supostamente, a preocupação.
Entretanto, por incrível que pareça, essa não é a discussão principal desse artigo. Hoje escrevo para defender um belo aumento de escopo desse pensamento dos políticos ao redor do mundo e conclamo os executivos do mercado financeiro e a população em geral para cerrar fileira em prol da minha campanha. Vamos considerar que os políticos estejam certos e vamos, então, aplicar a mesma lógica a uma outra profissão que envolve quantias enormes de dinheiro, tem influência primordial em todos os aspectos da sociedade e precisa ser muito controlada para que o curto prazo não fique no caminho das decisões de longo prazo. E qual profissão é essa: sim, a política!
É, seguindo a lógica que os políticos têm usado para falar do mercado financeiro, acho que nada mais justo do que aplica-la aos próprios políticos, que são muito mais perigosos do que os famosos banqueiros (que no caso do Brasil é um substituto de “pessoas que ganham muito dinheiro”). Seus salários são altos, seus custos para o público maiores ainda (sem levar em conta os assessores, apadrinhados e as atividades desonestas) e suas decisões influenciam de maneira decisiva a vida de todos. Portanto, por que não dar aos políticos o mesmo remédio que eles querem dar ao setor privado? Vamos ver um caso americano e dois brasileiros para provar meu ponto:
George W. Bush – Sim, ele mesmo, o tão controverso ex-presidente americano. Esse talvez seja o caso mais claro e fácil de ser provado nas últimas décadas. Em 2001, após o 11 de Setembro, Bush iniciou a guerra do Afeganistão, usando tropas de diversos países e apoiados em um mandato da ONU. A guerra visava destruir a al-Qaeda e o Talibã. Estava sendo um razoável sucesso, até que, em 2003, Bush resolveu iniciar outra guerra, baseado em relatórios totalmente errados de inteligência, conselhos da pior qualidade de seu Vice-Presidente, Secretario da Defesa e Assessor de Segurança Nacional. Apos a guerra do Iraque, viu-se que Saddam não tinha armas de destruição em massa, não tinha apoiado, nem apoiava grupos terroristas e, ainda, que o seu Iraque, controlado a ferro e fogo, não permitia nem a influência do Irã, nem da al-Qaeda em seu território. Sem contar que era um motivo a menos de ódio no Oriente Médio contra os EUA. A decisão de atacar o Iraque foi, provavelmente, a decisão que mais afetou negativamente a perspectiva futura de segurança dos EUA nas últimas duas décadas.
O resultado é que até o fim de Novembro, 4.367 americanos que não precisavam morrer, estão mortos. Mais de 31.572 estão feridos (muitos gravemente) e nesse numero não estão incluídos os feridos psicologicamente. Sem contar as baixas de civis Iraquianos, que a maioria das fontes coloca como superior a 100.000, desde 2003, e crescendo a cada dia. Se Saddam não tivesse sido burro e achado que Bush estava blefando, provavelmente poderia estar vivo até hoje, mandando em seu país e mantendo o Oriente Médio bem menos confuso do que ele está hoje. Sem contar que é preciso pensar em quanto tempo Saddam levaria para matar 100.000 de seus cidadãos.
O custo financeiro da guerra para os cofres Americanos até a meia noite do dia 8 de Dezembro era de 707 Bilhões de dólares (aumentando a cada segundo). Imaginem a diferença que esse dinheiro poderia fazer para a economia dos EUA hoje e, por conseqüência, pro resto das economias do mundo? Isso sem contar essa decisão fez com que a guerra no Afeganistão fosse negligenciada e hoje, as perspectivas de um resultado positivo lá e o custo disso, em vidas e riquezas, é muito maior. O custo de ambas as guerras aproxima-se de 1 Trilhão de dólares. É um numero tão incapaz de ser compreendido, que nem colocando na medida preferida do Jornal Nacional para explicar qualquer assunto financeiro para os brasileiros é capaz de se compreender. Imagem William Bonner falando “com esse dinheiro daria para comprar 43 milhões 478 mil e 260 carros populares”.
O resultado para George Bush? Só de adiantamento para seu livro de memórias, foram 7 milhões de dólares. Seu Vice-Presidente e assessores também não ficaram para trás. Um deles virou até Presidente do Banco Mundial. É, realmente, essa questão do curto e longo prazo, assim como da responsabilidade pelas decisões tomadas precisa de mais atenção dos políticos.
Brasil – Um exemplo mais perto dos brasileiros, o nosso presidente Lula. Agora o Brasil todo acha uma maravilha a grande expansão do bolsa família e seus correlatos estaduais, do aumento no número de funcionários no governo federal e ninguém parece se importar com a nova moda inaugurada pelo relativismo ético do Presidente da República: político pego com a boca na botija não precisa perder o mandato e, se em último caso isso acontecer, não precisa perder o poder (vide Palocci e José Dirceu). Será que daqui a 10 anos todas essas mudanças, com gastos do governo federal só aumentando, assim como a carga tributaria, ainda serão consideradas boas? Qual será a conseqüência para o país dessas decisões, muitas tomadas apenas com o futuro político do Presidente em mente? E quem será culpado, o governante do momento, ou o, então, ex-Presidente Lula? Bom, se o Presidente for o Lula de novo, não há dúvida de que a culpa será do governo anterior ao seu e os brasileiros acreditarão nisso.
Rio de Janeiro – O que dizer do famoso Brizola? Sua decisão de, na prática, suspender o combate ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro na década de 80 fez com que o problema fosse multiplicado várias vezes, resultando na situação atual do Estado. O vício de um de seus familiares próximos e suas decisões sobre o crime fizeram com que a palavra “Brizola” virasse sinônimo de cocaína até hoje. Os governadores que vieram em seguida não fizeram muito melhor (com a exceção do atual, que parece querer fazer algo, de verdade, sobre o problema). E o que aconteceu de conseqüências para o falecido ex-governador? Já para a sociedade carioca as conseqüências são claras.
Por esses e dezenas de outros motivos que conclamo os leitores a aderirem à campanha do tratamento igual para todos, que já começa dando errado, porque “tratamento igual para todos”, no Brasil, existe só em livros e salas de aula. Mesmo assim, seria uma campanha interessante e não tenho dúvidas de que, em todos os países, o benefício seria imensamente superior do que o que será atingido com a limitação, por leis e decretos, dos salários e bônus dos executivos do mercado financeiro internacional.
Igualdade de tratamento já!